Teu cheiro amarfanho durante toda a cidade
e nos dentes postos sobre a mesa
como um escapulário tua lascívia eu pressinto.
Nem a lua nem teus olhos certamente me salvarão deste teu cheiro espesso.
Eu cresci nestas estranhas paragens sem estrelas entre bichos e flores
como se não fossem cobertos pela escuridão.
Apenas arfava um golpe entre o vazio de mim
e a captura de insetos do inferno em teus cabelos.
Em inquietude, me preparo para a dor.

Nelson Magalhães Filho


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos

do mundo."
( Fernando Pessoa: Tabacaria)




Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acretido na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.
Nelson Magalhães Filho

segunda-feira, setembro 17, 2007

MILAGRES DESCONHECIDOS Em tua casa descoberta na tormenta
todos os corpos serão possíveis: seios
instalados como lâmpadas nos confins
de um gozo emboscado entre dois mundos.
Cada corpo uma chave, com seus dentes
mascando um segredo antes da perda.
Vagará por entre os cômodos um abismo
sem que reconheça a ossada de seus danos.
Tua nudez imune frequenta todos eles,
os corpos alojados sob a tinta soluçante,
paradeiro aflito de uma fuga de quimeras.
Com seus lábios despistando espelhos, cada
corpo se orgulha de abrigar outros tantos,
sem saber ao certo onde plantou sua morada.

poema & imagem: floriano martins
setembro de 2007

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